Kelly Clarkson já provou que sabe cantar. Venceu o reality show “American Idol”, vendeu 15 milhões de álbuns, levou vários prêmios (incluindo dois Grammys). Mas “My December”, seu terceiro CD, lançado em 26 de junho, foi um novo desafio, pois ela aventurou-se no mundo da composição musical. É responsável pela co-autoria de todas as 14 canções. A produção ficou a cargo de David Kahne, o qual trabalhou com bandas consagradas como The Strokes e Sugar Ray. O resultado, entretanto, não agradou de maneira geral. Quem nunca gostou do seu som, não será dessa vez que passará a ouvir ininterruptamente. Quem curte, escutará até decorar as letras, pois fã que é fã tem a obrigação de apoiar seu artista preferido mesmo em momentos adversos.
Apesar das críticas negativas, o álbum vendeu 390 mil cópias ao redor do mundo na semana de lançamento, ficando em primeiro lugar no United World Chart. Com os resultados das duas semanas seguintes, alcançou a quantia de 680 mil discos comercializados. Nada mal para uma época em que os downloads pela internet, tanto legais quanto ilegais, massacram a indústria fabricante de mídia. Ainda assim, com certeza não chegará nem perto da impressionante marca de 11 milhões, atingida pelo seu antecessor, “Breakaway” (2004). Faltam grandes hits, como foi “Because Of You” (a mais tocada no Brasil em 2006), fazendo com que Kelly desapareça das rádios e perca público.
O primeiro single, “Never Again”, foi um fracasso nas paradas norte-americanas (em algumas estações, permaneceu por somente seis semanas). Fala sobre um relacionamento mal-sucedido da cantora, resultando na clássica dor-de-cotovelo. Dispara acusações e até amaldiçoa o ex (“I hope when you’re in bed with her, you think of me”). A maior parte das letras, aliás, é bem amarga. Em “Hole”, ela diz que quer desistir de tudo, está morrendo aos poucos e implora por ajuda. “Don’t Waste Your Time” serve para descarregar a frustração com o amigo que não merece uma segunda chance, e “Judas” mostra a traição daquele em que um dia acreditou. “One Minute” indica mudanças de humor regulares. Problemas e conflitos não podem ser considerados assuntos novos na discografia de Kelly; são, na verdade, uma constante. “My December” vai além, é o mais triste, sombrio, revelando uma pessoa insatisfeita com a vida e com os indivíduos ao seu redor.
“How I Feel” não é exceção no álbum quanto ao pessimismo (“At this rate I’m gonna end up alone/ It’s problably all my fault, all my fault”). A diferença, contudo, está no vocal peculiar e no ritmo alegre, beirando o infantil nos primeiros segundos. Provavelmente, será um dos singles. O próximo está definido: “Sober”, uma melodia suave sobre a tentativa de superar um vício, que ganha energia no final. Várias outras canções também são lentas, chegando ao ápice em “Be Still”, uma legítima “corta-pulso”. Em “Haunted”, a cantora se aproxima do rock, muito semelhante ao da banda de metal (?) Evanescence. O disco não tem um estilo definido, apesar da clara influência pop. Isso não chega a desvalorizar o trabalho de Kelly, mas confunde aqueles que esperavam uma espécie de “Breakaway II” ou coisa do tipo. Ao escutá-lo pela primeira vez, parece que há algo errado, incompleto, não surge o tão esperado clímax, nada empolga. Com o tempo, isso talvez mude, pois os ouvidos se acostumam e o senso crítico relaxa.
Kelly decidiu arriscar fazendo um álbum cheio de subjetividade e (talvez por isso) pouco comercial. As pessoas desejam produtos mais simples, fúteis e com mensagens menos complexas. Ou seja, querem diversão e não ouvir um rio de lamentações e tragédias. E o “suicídio” da cantora já rendeu adversidades: a “My December Tour”, que começaria nesse mês, foi cancelada devido à fraca venda de ingressos. Depois de ter desafiado quem não confiava no sucesso do novo disco e seguido em frente (dizem que Clive Davis, presidente da Sony BMG, desaprovou o material e exigiu mudanças, mas não conseguiu), Kelly precisa fazer um esforço e convencer os céticos de que ela não é apenas mais um rostinho bonito que desmorona ao enfrentar as peripécias da feroz indústria do entretenimento.
Top 3: “How I Feel”, “Judas” e “Sober”.
Veja abaixo o videoclipe de “Never Again”:
*Para quem curte a Kelly no matter what, existem duas faixas possíveis de serem adquiridas exclusivamente pelo iTunes – “Not Today” e “Dirty Little Secret”. E em uma versão japonesa de “My December”, está uma música chamada “Fading”. Ouvi as duas primeiras e posso dizer que não impressionam.
*Ah, e pra quem ouvir o CD até o fim, não desligue assim que os acordes de “Irvine” acabarem – tem uma surpresa escondida e ela se chama “Chivas”!