Posts de Julho, 2008

O banheiro do Beto

31/07/2008

O contraste entre alegria e tristeza dá o tom do filme “O Banheiro do Papa” (“El Baño del Papa”, 2007, 97 min), uma co-produção entre Brasil, Uruguai e França. Dirigido por César Charlone e Enrique Fernández, que também assinam o roteiro, o longa retrata a passagem do Papa João Paulo II pela cidade de Melo, no nordeste uruguaio, em 1988. O acontecimento, que deveria ser uma grande festa, acabou marcado como uma das maiores decepções para a população local.

Beto (César Troncoso) é um contrabandista que sobrevive levando, por encomenda, produtos do município gaúcho de Aceguá, na fronteira, aos comerciantes de Melo. As viagens são diárias e feitas de bicicleta, sempre ao lado do amigo Tica (Jose Arce). Muitas vezes, o medo de serem pegos pela polícia exige caminhos alternativos, evitando as estradas e passando pelo meio dos campos. Mas nem assim eles se vêem livres do policial corrupto Meleyo, que não hesita em humilhar os muambeiros e tomar deles as mercadorias que lhe interessam, como as bebidas.

Em casa, a vida não é mais fácil. A família pobre mora numa casa extremamente simples, sem se dar ao luxo nem mesmo de ter um banheiro próprio, contentando-se com um comunitário. A mulher Carmen (Virginia Mendez) trabalha duro como costureira para juntar dinheiro para pagar os estudos da filha Sílvia (Virginia Ruiz), que sonha em ser radialista. A falta de verba gera crises, brigas, deteriorando os relacionamentos. Geralmente, quem toma uma atitude precipitada (como beber até cair ou tentar roubar o dinheiro da companheira) é Beto. No entanto, com seu jeito cativante e vários presentes, sempre consegue reconquistar Carmen. Com Sílvia, a realidade se complica: ela não confia no pai e prefere manter distância.

O filme não se destaca por situações de grande emoção, nem apresenta um clímax. A história é contada de uma maneira simples e linear, acentuada pela fotografia de paisagens bucólicas, pastos extensos de um verde meio triste. Mas as atuações sólidas dos atores compensam qualquer esfriamento no decorrer da narrativa. César Troncoso está impecável como o muambeiro sonhador, que deseja apenas uma vida melhor para a família. Assim, o longa consegue conquistar o público, com personagens bem construídos que se encontram envolvidos em um acontecimento incomum.

A trama alterna momentos de desespero para o protagonista (ao perder as encomendas) e de intenso entusiasmo, com suas idéias mirabolantes. A principal delas é a construção de um banheiro público pago, para ser utilizado durante a visita do Papa à cidade. Os moradores de Melo estão em polvorosa, projetando grandes lucros com a venda de empadas, pastéis, lingüiças para dezenas ou até centenas de milhares de devotos visitantes. Para Beto, seu plano é imbatível. Após comerem e beberem, como essas pessoas não precisariam fazer as necessidades?

“O Banheiro do Papa” levou o prêmio de Melhor Filme do Júri da 31ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo, além de ter vencido seis Kikitos em Gramado, incluindo Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Ator e Melhor Atriz. Mesmo assim, a história de um povo sofrido que vê sua grande esperança de redenção (nem tanto religiosa, pois a visita de João Paulo II em si, que realmente ocorreu, estava em segundo plano, mas sim econômica) ruir em poucas horas não teve ampla divulgação. Baseou-se no boca-a-boca para levar um bom público às salas de cinema. Em Porto Alegre, com duas cópias, a produção foi vista por cerca de 7 mil espectadores em apenas 17 dias.

Confira o trailer: