O banheiro do Beto

31/07/2008 by

O contraste entre alegria e tristeza dá o tom do filme “O Banheiro do Papa” (“El Baño del Papa”, 2007, 97 min), uma co-produção entre Brasil, Uruguai e França. Dirigido por César Charlone e Enrique Fernández, que também assinam o roteiro, o longa retrata a passagem do Papa João Paulo II pela cidade de Melo, no nordeste uruguaio, em 1988. O acontecimento, que deveria ser uma grande festa, acabou marcado como uma das maiores decepções para a população local.

Beto (César Troncoso) é um contrabandista que sobrevive levando, por encomenda, produtos do município gaúcho de Aceguá, na fronteira, aos comerciantes de Melo. As viagens são diárias e feitas de bicicleta, sempre ao lado do amigo Tica (Jose Arce). Muitas vezes, o medo de serem pegos pela polícia exige caminhos alternativos, evitando as estradas e passando pelo meio dos campos. Mas nem assim eles se vêem livres do policial corrupto Meleyo, que não hesita em humilhar os muambeiros e tomar deles as mercadorias que lhe interessam, como as bebidas.

Em casa, a vida não é mais fácil. A família pobre mora numa casa extremamente simples, sem se dar ao luxo nem mesmo de ter um banheiro próprio, contentando-se com um comunitário. A mulher Carmen (Virginia Mendez) trabalha duro como costureira para juntar dinheiro para pagar os estudos da filha Sílvia (Virginia Ruiz), que sonha em ser radialista. A falta de verba gera crises, brigas, deteriorando os relacionamentos. Geralmente, quem toma uma atitude precipitada (como beber até cair ou tentar roubar o dinheiro da companheira) é Beto. No entanto, com seu jeito cativante e vários presentes, sempre consegue reconquistar Carmen. Com Sílvia, a realidade se complica: ela não confia no pai e prefere manter distância.

O filme não se destaca por situações de grande emoção, nem apresenta um clímax. A história é contada de uma maneira simples e linear, acentuada pela fotografia de paisagens bucólicas, pastos extensos de um verde meio triste. Mas as atuações sólidas dos atores compensam qualquer esfriamento no decorrer da narrativa. César Troncoso está impecável como o muambeiro sonhador, que deseja apenas uma vida melhor para a família. Assim, o longa consegue conquistar o público, com personagens bem construídos que se encontram envolvidos em um acontecimento incomum.

A trama alterna momentos de desespero para o protagonista (ao perder as encomendas) e de intenso entusiasmo, com suas idéias mirabolantes. A principal delas é a construção de um banheiro público pago, para ser utilizado durante a visita do Papa à cidade. Os moradores de Melo estão em polvorosa, projetando grandes lucros com a venda de empadas, pastéis, lingüiças para dezenas ou até centenas de milhares de devotos visitantes. Para Beto, seu plano é imbatível. Após comerem e beberem, como essas pessoas não precisariam fazer as necessidades?

“O Banheiro do Papa” levou o prêmio de Melhor Filme do Júri da 31ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo, além de ter vencido seis Kikitos em Gramado, incluindo Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Ator e Melhor Atriz. Mesmo assim, a história de um povo sofrido que vê sua grande esperança de redenção (nem tanto religiosa, pois a visita de João Paulo II em si, que realmente ocorreu, estava em segundo plano, mas sim econômica) ruir em poucas horas não teve ampla divulgação. Baseou-se no boca-a-boca para levar um bom público às salas de cinema. Em Porto Alegre, com duas cópias, a produção foi vista por cerca de 7 mil espectadores em apenas 17 dias.

Confira o trailer:

 

 

Uma noite para curtir Amy Winehouse

28/05/2008 by

Arctic Monkeys, Cansei de Ser Sexy e The Killers criavam um clima dançante aos amantes do indie rock no Porão do Beco, no dia 15 de maio, quando uma voz ecoou do palco. “Chega de dance. O dance já morreu. Nós somos o Império da Lã”, decreta Carlinhos Carneiro, da banda Bidê ou Balde, apresentado seu projeto paralelo. Assobios tomaram conta do local. Com passos distraídos chega a frente do palco a porto-alegrense Lica.

A blusa estava desalinhada e deixava apenas um ombro de fora. As pulseiras eram tantas que cobriam metade do braço direito. O shorts pequeno e branco estava meio escondido pela tal blusa. Ao lado dos olhos, dois traços pretos estavam riscados para cima. O cabelo estava preso em algumas partes e solto em outras. O visual desajustado feito por Lica tem um porquê: inspiração em Amy Winehouse. Afinal, ela vai se transformar na cantora inglesa por uma noite. A porto-alegrense é considerada uma convidada no palco, atrás dela está a Império da Lã.

Confira o vídeo de “Just Friends” abaixo:

A banda foi criada após inúmeros churrascos realizados nas casas de Guilherme Almeida, da Pública, e Carlinhos Carneiro. O nome dos integrantes varia, mas entre eles estão Chico Berlota, da Groove James, Pedro Petracco, do Cartolas e Jojô Lala, do Volantes. O grupo tem um projeto chamado “Classic Albuns”, em que eles tocam um disco inteiro de grande destaque no cenário pop/rock. Já apresentaram “Magical Mystery Tour”, dos Beatles e “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”, do Roberto Carlos. Agora chegou a vez de “Back To Black”, lançado em 2006 e ganhador do Grammy de Melhor Álbum do Ano de 2008.

Clique aqui para escutar Carlinhos Carneiro e Guilherme Almeida comentando quando surgiu o projeto Classic Albuns.

O porquê da escolha de “Black To Black” para a apresentação é explicado por Carlinhos Carneiro aqui.

Confira abaixo o vídeo de “Back To Black”:

They tried to make me go to rehab but I said no, no, no. O refrão da música Rehab surge como um hino para o público do Porão do Beco. Todos que estão lá parecem querer seguir os conselhos cadenciados de Amy Winehouse. Por sinal, quem também sentiu completa identificação com a canção foi a própria Lica. “Depois que escutei Rehab rolou a afinidade”, confessa a porto-alegrense, que incluiu a música no setlist dos seus shows. E foi numa dessas apresentações solo que o Império da Lã viu o cover da cantora e a convidou para a parceria. “Além disso, a Lica é minha amiga e tocava com o Chicão (Berlota) na Groove James”, conta Carneiro.

As músicas são executadas na sequência em que estão presentes no álbum. Tudo para manter maior fidedignidde à obra original. A banda se mostra muito competente ao executar as letras. Quem derrapa em alguns momentos é a cantora Lica. Ela erra algumas letras chegando a pegar um papel para se guiar em “Tears Dry On Their Own” (vídeo abaixo). O postura no palco lembra o estilo hip-hop das canções-solo.

O ponto alto se registrou em “Back To Black” quando a platéia cantou em coro o refrão desde o primeiro instante. Algumas canções a frente e os integrantes se desentenderam quanto a tracklist do álbum. A Império sai temporareamente do palco e Pedro Petraco fica sozinho para fazer um voz e violão de “Addicted”, canção que está presente na versão inglesa. Para fechar a apresentação, Império da Lã e Lica executam “Valerie”, a famosa parceria de Amy Winehouse com Mark Ronson, que não está presente no segundo álbum. Mesmo derrapando em alguns momentos do show, o que contava aos presentes era curtir uma noite escutando as canções da inglesa que vem causando frisson ao redor do mundo.

Para assistir um trecho da apresentação de “You Know I’m No Good” clique aqui.

Um rock pouco usual

23/03/2008 by

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O nome soa estranho. O estilo, mais ainda. Mas não é que o rock cristão feito pela banda norte-americana Relient K (leia-se “relaiant quei”, em referência ao Plymouth Reliant K, o carro do guitarrista Matt Hoopes) supera as expectativas? Talvez não seja nenhuma revolução no mundo da música, mas o pop punk dos cinco jovens de Canton, Ohio, consegue contagiar e fazer com que as pessoas esqueçam qualquer estereótipo que poderia vir à mente junto com a palavra “cristão”.

Formado em 1998, ainda durante os tempos de colégio, o grupo lançou o primeiro álbum, o homônimo Relient K, em 2000. Mas o reconhecimento veio com Two Lefts Don’t Make a Right… but Three Do, de 2003, que rendeu uma indicação ao Grammy de melhor álbum de rock gospel. No Brasil, a primeira (e única) música a fazer um relativo sucesso foi Who I Am Hates Who I’ve Been, do cd Mmhmm (2004), que teve seu clipe tocado nas paradas em 2005.

Em março de 2007, surgiria o último álbum, Five Score and Seven Years Ago, o qual é o mais alegre, segundo a própria banda. Must Have Done Something Right, o primeiro single, traduz esse pensamento, ao contar a clássica história de dois jovens apaixonados que não se deixam abalar pelos comentários maldosos de pessoas invejosas e seguem em frente. Já a temática religiosa aparece com mais força em Forgiven (“E eu sei que fui perdoado/ E só espero que você possa me perdoar também”), mas mesmo assim não é explícita. Apenas através de um exame mais detalhado das letras é possível percebê-la. E o rock continua sendo bom. Este cd tem diversas faixas excelentes, vale a pena conferir I Need You, The Best Thing e Come Right Out And Say It.

Alguns fatos, porém, contribuem para uma certa desconfiança em relação ao grupo. Várias canções foram destinadas especificamente às rádios cristãs e dois álbuns especiais possuem somente músicas natalinas.

Mas parece que nem toda essa devoção ao Senhor foi suficiente para livrá-los de uma tragédia. Em maio de 2007, o ônibus que usavam numa turnê pegou fogo, resultando em muitas perdas materiais (ninguém se feriu). Para piorar a situação, o vocalista Matt Thiessen disse que seu laptop, com cerca de 100 músicas incompletas, havia sido destruído também.

Atualmente, o Relient K se prepara para a Warped Tour 2008, que deve passar por vários locais dos EUA a partir de junho. E mesmo que após ler este texto, você vá a uma loja, compre um cd e vire fã, não crie ilusões… O Brasil ainda não está preparado para receber uma banda de rock cristão.

Dá uma olhada no clipe de Must Have Done Something Right:

PS: Clipes não são o forte deles.


A redescoberta da Soul Music

12/03/2008 by

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Sopros e marcação forte atrás de uma voz potente. Isso é soul music em sua técnica, mas notas musicais tocadas ao acaso não provocam qualquer reação. É o sentimento de cada acorde unido a uma boa letra que faz uma canção. E este é o efeito que acende a fogueira chamada soul music.

Os responsáveis por manter a chama acesa, no momento, são Sharon Jones e os Dap-Kings. A união entre uma cantora, que fez parte da velha guarda da música negra americana, com os rapazes que tomaram água do velho Mississipi. O resultado é um balanço de peso sem qualquer efeito eletrônico. As gravações feitas no velho estilo Motown, todos os músicos dentro do estúdio como se estivessem tocando ao vivo, dá o toque visceral às melodias que falam dos amores perdidos e noites embriagantes.

Para os amantes do soul, Sharon Jones, 51 anos, é a uma cara nova, apesar de na década de 70 ter feito backing vocal para diferentes grupos de funk e disco. Sua voz potente juntou-se aos Dap Kings em 1996. Homer Steinweiss, Binky Griptite, Bugaloo Velez, Dave Guy, Tommy ‘TNT’ Brenneck, Bosco Mann, Neal Sugarman, Ian Hendrickson-Smith são os músicos que apostam em equipamentos analógicos e num som potente.

Do encontro de gerações nasce uma substância explosiva que aparece em 2001 no disco “Dap Dippin”, gravado pela Daptone Records, uma pequena gravadora no coração do Brooklyn, em New York. Ela aposta nos moldes da Motown, uma casa cheia de gravadores de rolo, pianos elétricos e equipamentos analógicos. Esse casamento deu origem a mais dois discos, “Naturally” em 2005, e o elogiado “100 Days, 100 Nights” de 2007. O álbum rendeu frutos aos Dap Kings: uma parceria com Mark Ronson e Amy Winehouse para a gravação do CD “Back to Black” da cantora. Os cinco Grammys que o disco ganhou em 2008 comprovam que boas canções tocadas por músicos de qualidade atravessam o tempo. Salve a boa e velha soul music, salve Sharon Jones e os Dap-Kings.

*Recomendo o vídeo da música “100 Days, 100 Nights” do último álbum com o mesmo nome. Uma canção, que como todo o soul, fala da espera durante 100 dias e 100 noites por um homem de outra. O vídeo tem esse jeito de antigo, mas não se enganem, como a música ele é bem atual.

Black Eyed Peas agita o Pepsi On Stage em Porto Alegre

11/10/2007 by

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 Os quatro integrantes do Black Eyed Peas desceram com certa lentidão uma escada montada sob o palco do Pepsi On Stage, com o intuito de escutar os gritos que aumentavam a cada passo que davam. O único show do grupo no Brasil se realizou dia 2 de outubro e iniciou com apenas 5 minutos de atraso. Os Peas começaram a apresentação da turnê “Black, Blue And You Tour” com “Hey Mama”, “Dum Diddley” e “My Humps”.

Dois dias antes de desembarcar no Brasil, o Black Eyed Peas se apresentou em Buenos Aires. Após o trio inicial de canções, Will comentou sobre o show: “A Argentina estava (mexeu as mãos em sinal de mais ou menos), mas o Brasil…”, e deixou a platéia completar suas palavras com gritos. Após outra demonstração de amor pelo país, quando o líder suspirava pelas brasileiras, os presentes ecoaram o famoso “Ah, eu sou gaúcho”.

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Como não lançam um álbum novo desde 2005, a apresentação da banda Black Eyed Peas focou o repertório em Fergie e will.i.am. Os dois possuem álbuns solo recentemente lançados. O da primeira, “The Dutchess”, recebeu disco de ouro por 50 mil cópias vendidas no Brasil. O do segundo, “Songs About Girls”, chega ao mercado brasileiro no final do mês. Aos integrantes Taboo e Apl.de.Ap restou uma ou duas músicas cantadas sozinhas no palco.

A banda se apresentou há quase um ano em Porto Alegre. No intuito de soar um pouco diferente cantou “Latin Girls”, “Que Dices?” e “Fallin’ Up”, cada uma de um disco.

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Uma batida potente e três dançarinas que não se cansavam de inventar uma nova coreografia a cada instante foram os ingredientes para surpreender a todos em “I Got It From My Mama”. Na seqüência foi executada a canção mais esperada da noite, “Big Girls Don’t Cry”. Tocada à exaustão desde ser trilha-sonora no reality show Big Brother Brasil, a música mostrou a potência vocal da voz feminina no Black Eyed Peas.

“You want more?”, questionou o líder dos Peas, Will. O duplo sentido contido na última palavra da pergunta foi, em segundos, revelado. Uma canção intitulada “More” resultou de uma parceria com a empresa de refrigerantes Pepsi-Cola. A união comercial também gerou a turnê, que está percorrendo 13 países subdesenvolvidos, além de diversos outros projetos. Para diferenciar este show dos outros, foi escolhida uma banda de inciantes para finalizar, ao vivo, a letra dessa canção-tema. Mr. Marx venceu um concurso de grupos de colégio e subiu ao palco do Pepsi On Stage para dividir os vocais com os experientes Peas.

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Quando voltaram para o bis, Fergie apareceu com uma calça colada ao corpo e uma camiseta onde estavam escritos os nomes dos quatro integrantes do grupo. A cantora já havia esticado a perna ao lado da cabeça e se equilibrado sob uma perna momentos antes. No entanto, ela insistia em provar sua elasticidade. E foi aí que caiu duas vezes no chão. Mas nada tirou o sorriso do rosto de Fergie, que ficou inúmeras músicas do lado direito do palco mandando beijos e sorrindo para câmeras fotográficas de fãs.

A banda apresentou perfeita sintonia no show. Os integrantes demonstravam estar à vontade em cima do palco para improvisar durante as duas horas e cinco minutos. Para fechar a única apresentação desta turnê no Brasil, “Let’s Get It Started” e “Jump Around” foram executadas.

Outras fotos do show podem ser vistas aqui.

Pato Fu em versão pocket e autografada

23/09/2007 by

 

O Pato Fu esteve, no dia 12, na Livraria Cultura de Porto Alegre para um pocket show seguido de uma sessão de autógrafos. O grupo mineiro divulga seu último álbum Daqui Pro Futuro, que possui 11 músicas inéditas e um cover da banda Siouxsie & the Banshees, em Porto Alegre.

O show em versão reduzida durou 22 minutos e revelou um lado divertido do Pato Fu. Após terminar a primeira música “30.000 Pés”, a vocalista Fernanda Takai reclamou no ouvido do guitarrista John Ulhoa: “A gente tocou muito depressa”. Ulhoa revidou com ar de deboche: “As mulheres sempre querem mais devagar”.

Fernanda coloca na mão um fantoche de cachorro e o apresenta ao público como Potchi (Totó em japonês). Ela explica que durante recente turnê de promoção do disco pelo Japão se sentiu sozinha e comprou o bicho de pelúcia. Antes de cantar “Mamã Papá” ela comentou que o refrão da música é tão fácil que pode ser cantado por uma criança de um ano de idade. Durante a canção, Potchi emitia sons de brinquedos infantis. Na metade de outra faixa nova, “Nada Original”, Fernanda comenta sem perder o ritmo: “Esqueci a letra”. Na seqüência, “Eu”.

A banda fingiu sair do palco e retornar dois passos depois para o término do show. “A volta do bis é sempre um momento de triunfo para o artista”, revela Ulhoa. A banda abriu pedidos para o público escolher a próxima canção. “Sploc” do cd Gol de Quem? foi a escolhida. Para fechar a apresentação, “Made In Japan”.

Entrevistei Fernanda Takai e ela comentou sobre:

– as diferenças do último cd para o anterior, Toda Cura Para Todo Mal

– a música que reúne todas as características do último álbum Daqui Pro Futuro

– o lançamento do disco Daqui Pro Futuro apenas em mp3 primeiramente no site UOL Megastore, antes do cd físico, e se essa será a solução das gravadoras no futuro para a comercialização ilegal

– a importância da internet para a banda

– um concurso da comunidade do Pato Fu no Orkut para votar numa letra escrita pelos participantes, que será enviada o grupo para que ele faça a melodia e grave a canção

A cobertura sobre o show, inclusive com fotos, pode ser encontrada aqui.

Tímidos passos no show de Dolores O’Riordan em Porto Alegre

30/08/2007 by

Crédito: Matheus Piovesan

 Com um sorriso no rosto e um andar tímido, Dolores O’Riordan chega ao palco do Teatro do Bourbon Country pontualmente às 20h, horário previsto para o início do show. É a primeira vez que a vocalista do Cranberries, em recesso desde 2003, vem ao Brasil. A turnê do primeiro disco-solo “Are You Listening?” segue no dia 28 para São Paulo.

Dolores entrou com uma guitarra em punho ao som de “Zombie”, clássico do Cranberries. O rosto de feições delicadas contrasta com a postura rock ‘n’ roll da irlandesa, que sacudia os cabelos de um lado para outro freneticamente. Mais três canções foram executadas e um momento de grande espera pelo público chegou: “Linger”. O primeiro e grande sucesso dos Cranberries foi anunciado pela frase “Vou levar vocês para 16 anos atrás”, data em que a música foi concebida.

Crédito: Matheus Piovesan

Dolores tocou flauta em “Human Spirit” e criou um clima misterioso em “October”. A irlandesa ainda cantou segurando uma bandeira do Brasil e fez várias danças com um esquilo de pelúcia, ambos entregues pelos fãs.

A canção “Salvation” resultaria numa roda-punk se as pessoas tivessem um pouco mais de intimidade com shows de rock. O público adulto, na sua maioria, exprimia a excitação com receosos passos ritmados. “I Can’t Be With You”, “Free To Decide” e “Loser” conferiram os pontos altos da apresentação.

Crédito: Matheus Piovesan

“Esta é a última”, anunciou Dolores antes de cantar “When We Were Young”, música que traduz o sentimento da platéia presente, que relembrava ali sua juventude. “Engraçado como as coisas soavam melhor quando nós éramos jovens”, versa a letra. Um “Obrigado Brasil” foi dito antes do bis.

Crédito: Matheus Piovesan

Quando a cantora voltou ao palco para cantar “Ode To My Famlily”, dezenas de balões vermelhos estavam em movimento, segurados pelo público. Ettiene Sipp revela que a idéia surgiu numa comunidade do Cranberries no Orkut. “É para diferenciar os shows do Brasil dos outros”, explica. O empregado público trouxe sacos de balões para distribuir na fila do show e levou para casa a baqueta do baterista. A ação será repetida pelos fãs paulistanos.

O show fechou com “Dreams” e uma certeza: “Foi mágico”, afirma Paula Machado, que trabalha em um cartório. Para ela, “Ode To My Family” foi uma das melhores por abordar sentimentos fortes que numa certa parte da vida todos sentem. Renata Appel, microempresária, comenta: “Fiquei em estado de êxtase”. Em “Animal Instinct” ela confessa que quase chorou.

Crédito: Matheus Piovesan

Dolores tem uma voz poderosa e um vigor físico surpreendente para uma mulher de quase 36 anos. É dona de um estilo de dança muito peculiar. Ela faz uma pose que dura instantes e, em seguida, volta a caminhar pelo palco para, momentos depois, posar novamente. “Eu espero nos vermos de novo”, disse. E saiu do palco, pulando.

Ninguém pode com Jason Bourne

26/08/2007 by

Após uma série de fim de trilogias que deixou a desejar (“Piratas do Caribe”, “Homem-Aranha”), surge finalmente uma seqüência com qualidade inquestionável: “O Ultimato Bourne”, do diretor Paul Greengrass. Ele encerra o ciclo sobre o mistério ao redor de Jason Bourne, um homem cheio de habilidades (maneja armas, fala várias línguas, entende de espionagem) e que não lembra quem é.

 

Em “A Identidade Bourne” (2002), o protagonista começa a resgatar seu passado.  Depois, tenta esquecer tudo e recomeçar em “A Supremacia Bourne” (2004), mas os antigos fantasmas voltam para atormentá-lo. Agora, já descobriu ser um ex-agente do CIA, a Agência Central de Inteligência norte-americana, embora ainda não entenda por que é constantemente perseguido em qualquer lugar que vá. “O Ultimato” consegue responder aos questionamentos do personagem interpretado por Matt Damon e também aos dos expectadores. A trama é bem construída, com retomadas de fatos já ocorridos. Assim, mesmo quem não lembra de detalhes das produções anteriores, entende, no final, a história como um todo.

Na tela, aparece um mundo implacável, onde só existem os que matam e os que mandam matar. Uma vida não vale nada quando está em jogo a imagem de uma poderosíssima instituição. Os “executores” se encarregam de qualquer ameaça ao sistema. Nem mesmo quem faz parte dele está livre.

Ritmo eletrizante. As cenas de ação dominam boa parte das quase duas horas do longa. Alguém pode achar que é muito para ver um homem correndo feito um louco por Moscou, Londres, Madri, Nova York. Mas a vontade de terminar de montar o quebra-cabeça prende a atenção. Além disso, os momentos de perseguição valem por si só. Como na maioria dos filmes do gênero, há exageros – dois acidentes espetaculares de carro não seriam suficientes para causar graves ferimentos em um ser humano que não usa cinto de segurança? Tudo bem, Bourne manca. Aliás, manca boa parte do tempo, o que não o impede de massacrar seus caçadores.

Faltou o par romântico. Apesar das insinuações da ex-colega agente Nicky Parsons (Julia Stiles, completamente insossa), nada quebra a muralha gelada do homem-máquina. Nem um pingo de sentimentalismo. Na verdade, ele deve ter receio de estabelecer contato ou se relacionar com outras pessoas, pois elas têm uma incrível tendência à morte quando isso acontece. O personagem parece não ter exigido muito do talento interpretativo de Damon. Bastou o esforço físico.

“O Ultimato” é o melhor dos três. Além de dar respostas, costura com habilidade todos os pontos da narrativa. E só a última cena já vale o ingresso.

 

Caso ainda não esteja convencido, assista ao trailer:

O retorno conturbado de Kelly

23/07/2007 by

 Kelly Clarkson já provou que sabe cantar. Venceu o reality show “American Idol”, vendeu 15 milhões de álbuns, levou vários prêmios (incluindo dois Grammys). Mas “My December”, seu terceiro CD, lançado em 26 de junho, foi um novo desafio, pois ela aventurou-se no mundo da composição musical. É responsável pela co-autoria de todas as 14 canções. A produção ficou a cargo de David Kahne, o qual trabalhou com bandas consagradas como The Strokes e Sugar Ray. O resultado, entretanto, não agradou de maneira geral. Quem nunca gostou do seu som, não será dessa vez que passará a ouvir ininterruptamente. Quem curte, escutará até decorar as letras, pois fã que é fã tem a obrigação de apoiar seu artista preferido mesmo em momentos adversos.

Apesar das críticas negativas, o álbum vendeu 390 mil cópias ao redor do mundo na semana de lançamento, ficando em primeiro lugar no United World Chart. Com os resultados das duas semanas seguintes, alcançou a quantia de 680 mil discos comercializados. Nada mal para uma época em que os downloads pela internet, tanto legais quanto ilegais, massacram a indústria fabricante de mídia. Ainda assim, com certeza não chegará nem perto da impressionante marca de 11 milhões, atingida pelo seu antecessor, “Breakaway” (2004). Faltam grandes hits, como foi “Because Of You” (a mais tocada no Brasil em 2006), fazendo com que Kelly desapareça das rádios e perca público.

O primeiro single, “Never Again”, foi um fracasso nas paradas norte-americanas (em algumas estações, permaneceu por somente seis semanas). Fala sobre um relacionamento mal-sucedido da cantora, resultando na clássica dor-de-cotovelo. Dispara acusações e até amaldiçoa o ex (“I hope when you’re in bed with her, you think of me”). A maior parte das letras, aliás, é bem amarga. Em “Hole”, ela diz que quer desistir de tudo, está morrendo aos poucos e implora por ajuda. “Don’t Waste Your Time” serve para descarregar a frustração com o amigo que não merece uma segunda chance, e “Judas” mostra a traição daquele em que um dia acreditou. “One Minute” indica mudanças de humor regulares. Problemas e conflitos não podem ser considerados assuntos novos na discografia de Kelly; são, na verdade, uma constante. “My December” vai além, é o mais triste, sombrio, revelando uma pessoa insatisfeita com a vida e com os indivíduos ao seu redor.

“How I Feel” não é exceção no álbum quanto ao pessimismo (“At this rate I’m gonna end up alone/ It’s problably all my fault, all my fault”). A diferença, contudo, está no vocal peculiar e no ritmo alegre, beirando o infantil nos primeiros segundos. Provavelmente, será um dos singles. O próximo está definido: “Sober”, uma melodia suave sobre a tentativa de superar um vício, que ganha energia no final. Várias outras canções também são lentas, chegando ao ápice em “Be Still”, uma legítima “corta-pulso”. Em “Haunted”, a cantora se aproxima do rock, muito semelhante ao da banda de metal (?) Evanescence. O disco não tem um estilo definido, apesar da clara influência pop. Isso não chega a desvalorizar o trabalho de Kelly, mas confunde aqueles que esperavam uma espécie de “Breakaway II” ou coisa do tipo. Ao escutá-lo pela primeira vez, parece que há algo errado, incompleto, não surge o tão esperado clímax, nada empolga. Com o tempo, isso talvez mude, pois os ouvidos se acostumam e o senso crítico relaxa.

Kelly decidiu arriscar fazendo um álbum cheio de subjetividade e (talvez por isso) pouco comercial. As pessoas desejam produtos mais simples, fúteis e com mensagens menos complexas. Ou seja, querem diversão e não ouvir um rio de lamentações e tragédias. E o “suicídio” da cantora já rendeu adversidades: a “My December Tour”, que começaria nesse mês, foi cancelada devido à fraca venda de ingressos. Depois de ter desafiado quem não confiava no sucesso do novo disco e seguido em frente (dizem que Clive Davis, presidente da Sony BMG, desaprovou o material e exigiu mudanças, mas não conseguiu), Kelly precisa fazer um esforço e convencer os céticos de que ela não é apenas mais um rostinho bonito que desmorona ao enfrentar as peripécias da feroz indústria do entretenimento.

Top 3: “How I Feel”, “Judas” e “Sober”.

Veja abaixo o videoclipe de “Never Again”:

*Para quem curte a Kelly no matter what, existem duas faixas possíveis de serem adquiridas exclusivamente pelo iTunes – “Not Today” e “Dirty Little Secret”. E em uma versão japonesa de “My December”, está uma música chamada “Fading”. Ouvi as duas primeiras e posso dizer que não impressionam.

*Ah, e pra quem ouvir o CD até o fim, não desligue assim que os acordes de “Irvine” acabarem – tem uma surpresa escondida e ela se chama “Chivas”!

O fenômeno Esmée

12/07/2007 by


Uma holandesa de 18 anos começou a postar despretensiosamente vídeos fazendo covers de famosas canções no YouTube. As semanas foram passando e as suas gravações obtiveram milhares de acessos. Quem assistia às suas performances comentava inúmeras vezes e pedia que ela interpretasse determinadas músicas. Essa adolescente que gosta de sair com os amigos, dançar e ir ao cinema como qualquer outra chama-se Esmée Denters e é o novo fenômeno da internet.

Esmée começou a postar vídeos caseiros em que aparecia cantando no dia 25 de agosto de 2006. Hoje possui 63 gravações, sendo que em algumas delas comenta sua vida. O contato com o público que apreciava sua voz foi importante para ela se estabelecer. A holandesa já ganhou até sites de fãs, como o EsméeZone e o Esmée Denters Fan Site.

Ela canta músicas muito conhecidas de artistas como Beyoncé, Alicia Keys , Ne-Yo, Alanis Morissette (acima) e Natalia Imbruglia. Suas gravações são muito simples: fica em frente a uma webcam de baixa qualidade e canta lendo a letra da canção no computador ao lado. A simplicidade se explica também porque o enfoque dela é a voz. É interessante que em inúmeras canções Esmée canta sem nenhuma base musical.

 Foi apostando num previsível sucesso e num talento inegável que Justin Timberlake contratou-a para a sua recente gravadora, Tennman Records. Depois de assinar o contrato, Esmée gravou um vídeo para a canção de “What Goes Around… Comes Around” (abaixo) do Justin, em que ele toca piano e faz backing vocal. Ao final da gravação vista 6 milhões e meio de vezes, o consagrado cantor diz “Ela canta a minha música melhor do que eu”. Todos os seus vídeos tiveram uma expressiva quantidade de visualizações e até o menos popular foi assistido por um número considerável de pessoas, 54 mil.

Esmée Denters não é apenas uma excelente cantora, como também compositora e tecladista. Ela viajou em maio para os Estados Unidos para gravar algumas faixas do seu primeiro álbum e trabalhou com produtores renomados, que já compuseram com o Black Eyed Peas e com a Pink. Foi nesta viagem que conheceu Kelly Rowland e com quem gravou uma música escrita pela própria ex-Destiny Child. Desde junho Esmée abre os shows da turnê européia de Justin e hoje postou um vídeo cantando junto com Natasha Bedingfield o sucesso “Unwritten”.